Estigma da obesidade
Nutrição

Estigma da obesidade




Por Cezar Vicente Júnior, nutricionista

É em dias que vejo reportagens como a exibida no ultimo dia 10 de junho, sobre o tema obesidade, que fico extremamente triste de como as pessoas obesas são vistas.

Resumidamente, a reportagem conta sobre um professor de educação física americano que tinha um corpo bem musculoso e definido resolveu seguir uma "dieta de engorda" (sic) com o "nobre" objetivo de sentir na pele como era a vida de alguém com obesidade. Durante a reportagem, o rapaz é mostrado comendo grandes quantidades de alimentos, por exemplo, um bolo inteiro, várias panquecas lavadas de geleia, etc. Em seguida, aparece uma foto dele sem camisa, antes e depois do processo. A esposa relata que o marido roncava demais depois que engordou, não a deixava mais vê-lo sem roupa, e até o desempenho sexual dele ficou comprometido. A reportagem é finalizada com uma conclusão estapafúrdia: "No Brasil, só é gordo quem quer", dita pelo próprio professor.

Podemos explorar e discutir essa matéria de diversos ângulos, mas vou preferir focar hoje no aspecto do estigma da obesidade.

Na minha leitura, a reportagem nos conduz a algumas conclusões bem definidas:

• Uma pessoa obesa come por uma família de cinco pessoas;
• Qualquer pessoa pode mudar seu corpo facilmente;
• É fácil perder peso;
• Só é gordo quem quer;
• Ser gordo é o mesmo que não ser atraente, roncar e ter um desempenho sexual inferior.

Todas essas questões são estigma da obesidade.

Estigma pode ser definido como um atributo que é profundamente desacreditado e que desqualifica uma pessoa da completa aceitação social.

De acordo com a pesquisadora americana Lily O'Hara, esses conhecimentos sobre peso ainda hoje são uma mistura de senso comum com conhecimento científico.

A discriminação de pessoas obesas é extremamente comum, inclusive entre profissionais da saúde que lidam com esses pacientes.

De acordo com um recente estudo, o estigma em relação à obesidade cresceu aproximadamente 66% nos últimos 10 anos!

Os estereótipos comumente associados são: preguiçoso, fraco, malsucedido, burro, sem disciplina, sem força de vontade, aquele que abandona o tratamento para perda de peso...

No Reino Unido, alguns pesquisadores realizaram um estudo com graduandos de nutrição para verificar a questão do estigma sobre as pessoas obesas. Quatro estudos de casos fictícios foram apresentados para os alunos: 2 eram homens e 2 mulheres. Eles apresentavam informações sobre idade, raça, peso, estatura, IMC, % gordura corporal, pressão arterial, perfil lipídico, glicemia de jejum, ingestão de fibras, ingestão calórica, nível de stress, nível de atividade física, ingestão de frutas legumes e verduras. Os pares apresentavam informações exatamente idênticas, exceto peso, % gordura corporal e IMC. Enquanto um dos pares tinha um peso considerado eutrófico de acordo com o IMC, o outro apresentava obesidade grau I, ainda de acordo com o mesmo índice.

Mesmo tendo características idênticas entre os pares de sexo, 81% dos alunos declararam que os obesos comiam demais, 75% declararam que os obesos tinham baixa auto-estima, 65% declararam que os obesos tinham pouca de vontade, entre outros.

As consequências do estigma contra pessoas obesas são diversas: consequências psíquicas, menor procura pelos serviços de saúde por medo de ser ridicularizado ou receber atenção diferenciada em comparação com outros pacientes (nesse caso, uma pior atenção), aumento da morbidade / mortalidade...

Para mim, pensar na obesidade como uma questão de “força de vontade” é excluir. Tendo a duvidar que algum dia haverá um CID (Classificação Internacional de Doenças) para “falta de força de vontade”, ou tampouco um remédio para isso. Então, se eu pensar que a obesidade se resume a esses estigmas, é o mesmo que pensar que não tem jeito. Se eu penso que não tem jeito mesmo, qual o tamanho do esforço e dedicação que darei a esse paciente?

Termino com um breve diálogo que tive recentemente com uma paciente de 8 anos de idade em consulta.

Menina: Eu preciso que você me diga o meu peso.

Nutri: Parece que você quer muito saber o quanto está pesando.

Menina: É... eu preciso saber para saber se está demais...

Nutri: E quanto seria demais?

Menina: Não sei, mas queria que você me dissesse se é ou não, porque se for ‘a mais’ minha mãe vai brigar comigo dizendo que eu comi demais... Mas eu não acho que comi demais...

Nutri: Sua mãe briga com você quando está gripada, com febre?

Menina: Não! Nunca! Ela cuida de mim!

Nutri: Então ela não precisa brigar com você por isso, independente do peso que você estiver.



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